Amigos, às vezes, perguntam o porquê e como, um dia, fui dar com os costados nas redações de jornais. Respondo como respondem os muçulmanos: "Estava escrito". Não escolhemos o ofício do qual tiramos, vida afora, as moedas para o pão e os dízimos. Tolice especular sobre o destino das coisas. É como indagar a Santos Dumont por que inventou o avião, a Albert Einstein por que tirou dos escaninhos da física a lei da relatividade, teoria que é a mão da bomba atômica, bomba que é o ponto final da humanidade. Ou porque o sorveteiro vende sorvetes, e o sapateiro envelhece vergado sobre tachinhas e colas?De qualquer modo, lembro vagamente que, certa vez, terminada a leitura de um livro ("O Elefante Azul"), de Emilio Salgari, ainda sob a cintilação das dunas e dos marfins, imaginei-me também um escritor. Eu tinha 12 anos. E desatei a escrever minha própria experiência na corte de Sabá, cercado por areias e miragens que até hoje fazem parte do meu imaginário. A aula de geografia ia a meio. Subitamente, senti a mão do professor Eulico Mascarenhas de Queiroz sobre meus ombros, raptando meus manuscritos. Ele não disse palavra, a aula prosseguiu, o pequeno incidente sequer fora notado pelos meninos das cadeiras mais próximas.
No dia seguinte, o professor, discretamente, entregou-me a "Folha de Botucatu", com meus elefantes e girafas estampados em letras de fôrma. Sempre senti um grande respeito para com a letra de fôrma, guardiã de todas as verdades, desde os primeiros hieróglifos em sânscrito e aramaico. Quando vi, pela primeira vez, no alto da cruz, a inscrição judaica e irônica I.N.R.I. ("Jesus de Nazaré Rei dos Judeus"), minha inteligência abriu-se para o cristianismo. O I.N.R.I. são as únicas letras de fôrma em todo o holocausto do calvário.
Acho que foi esse devotamento, essa compulsão à letra de forma, que me levou, vida afora, ao tristonho ofício de escrever. Meu primeiro emprego, aos 19 anos, foi cartas, vindas de portugal, oferecendo castanhas e nozes a Seixas & Seixas. Quebrei as nozes e os protocolos. Ao invés de "Prezados Senhores", eu escrevia "Amigos do Além-mar", e ao arrematar, ao invés de clássico "Atentos e Obrigados", eu ousava "Shalom, Shalom!" Os negócios se multiplicaram.
A letra de fôrma sempre exerceu uma devastadora fascinação sobre o meu espírito semi-analfabeto.